sexta-feira, 20 de março de 2026

ANTÓNIO GEDEÃO - Não há, não, duas folhas iguais

 


Fotografia - José Maria Laura



Não há, não,

duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,

não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

baínha nem todas.

Umas são fendidas,

crenadas, lobadas,

inteiras, partidas,

singelas, dobradas.

Outras acerosas,

redondas, agudas,

macias, viscosas,

fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,

nos actos distantes,

mesmo semelhantes

são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,

e lançam apelos nas ondas que fazem;

outras vão e jazem

sem mais movimento.

Mas outras não jazem,

nem caem, nem gritam,

apenas volitam

nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão


quinta-feira, 19 de março de 2026

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - Pai, dizem-me que ainda te chamo


Fotografia - José Maria Laura


Pai, dizem-me que ainda te chamo


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante

o sono - a ausência não te apaga como a bruma

sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos

meus sonhos um território suspenso de toda a dor,

um país de verão aonde não chegam as guinadas

da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí


nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo

que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te

chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com

lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum

ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me


depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar

e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro

escuro desse sonho. Não sabem


que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu

nome - porque a memória é uma fogueira dentro

das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois



sexta-feira, 13 de março de 2026

Outra Ferreira a crescer...


Betão tirado a ferros , manchinhas verdes  e árvores a resistir...
José Maria Laura






Fotos - José Maria Laura, março de 2026

A Construção do Poema

A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.

António Ramos Rosa



 

domingo, 8 de março de 2026

ONU - Igualdade de género





 

DOCE LEGUAS - No voy sola




«Esta lámina es un homenaje silencioso a las mujeres que nos habitan. A las que vinieron antes, a las que nos sostuvieron, a las que caminaron incluso cuando no había camino. Figuras que avanzan juntas, cargando flores, memoria y ternura, recordándonos que nunca estamos realmente solas.

Es una pieza que habla de sororidad, de herencia emocional y de la fuerza que se transmite de generación en generación. De avanzar con miedo, pero avanzar igual. De llevar dentro a quienes nos enseñaron a florecer.»

AQUI



CLUBE UBUNTU - Na Ferreira ... Dias da Mulher

 

Uma bela iniciativa do Clube Ubuntu da Ferreira Dias que partilhamos com alegria (e saudade!) 

para celebrar o Dia dos Direitos da Mulher!

Os vossos sorrisos luminosos e alguns versos fortes sustentam a nossa homenagem a tantas Mulheres que povoam as salas, palmilham os corredores e desenham a alma da Ferreira!

José Maria Laura 



« Hoje celebrámos o Dia da Mulher com um pequeno gesto cheio de significado. As alunas do Clube Ubuntu prepararam uma surpresa especial para todas as mulheres docentes e não docentes da Escola Secundária Ferreira Dias.
Cada mulher recebeu uma frase inspiradora, de e para mulheres, acompanhada de um rebuçado, como símbolo de carinho, reconhecimento e gratidão pelo papel fundamental que desempenham todos os dias.
💜
Foi um momento simples, mas cheio de sorrisos, partilha e valorização da força, coragem e inspiração que cada mulher representa.
✨ Porque cada mulher merece ser lembrada do seu valor.
✨ Porque juntas somos mais fortes.»



O mar dos meus olhos

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma.

Adelina Barradas de Oliveira


Retrato de Mulher

Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade

Sophia de Mello Breyner Andresen


Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com 
os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen



Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher”

Ary dos Santos

 


Ode à paz

[...]
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 

Natália Correia


Hoje é dia da Mulher.
Ontem foi dia da Mulher.
Amanhã
será dia da Mulher.
Enquanto houver dias.
Enquanto
houver Mulheres.

[Atribuído a]  Joaquim Pessoa