domingo, 22 de março de 2026

Na Ferreira - « Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro»


Numa sala quentinha (apesar do frio de dezembro), entre muitas mesas silenciosas, uma conversa  ficou sustida no tempo para me oferecer estes sorrisos imutáveis...


15 de dezembro de 2016


Porque as nossas vidas se ergueram à volta de mesas como esta, amparadas pelo companheirismo...

Margarida, Manuel e Lourdes, abraços jubilados!
Alice e Ana, muita energia até jubilarem (em todos os sentidos)!

Maria Laura



Os trabalhos e os dias


Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro

e principio a escrever como se escrever fosse respirar

o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem

de um caminho sem nada para o regresso da vida.


À medida que escrevo, vou ficando espantado

com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.

Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.

Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,

quando fico triste por serem palavras já ditas

estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.


Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.

E os convivas que chegam intencionalmente sorriem

e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo

e desenhei uma rena para a caçar melhor

e falo da verdade, essa iguaria rara:

este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

ANTÓNIO GEDEÃO - Não há, não, duas folhas iguais

 


Fotografia - José Maria Laura



Não há, não,

duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,

não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

baínha nem todas.

Umas são fendidas,

crenadas, lobadas,

inteiras, partidas,

singelas, dobradas.

Outras acerosas,

redondas, agudas,

macias, viscosas,

fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,

nos actos distantes,

mesmo semelhantes

são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,

e lançam apelos nas ondas que fazem;

outras vão e jazem

sem mais movimento.

Mas outras não jazem,

nem caem, nem gritam,

apenas volitam

nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão


quinta-feira, 19 de março de 2026

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - Pai, dizem-me que ainda te chamo


Fotografia - José Maria Laura


Pai, dizem-me que ainda te chamo


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante

o sono - a ausência não te apaga como a bruma

sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos

meus sonhos um território suspenso de toda a dor,

um país de verão aonde não chegam as guinadas

da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí


nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo

que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te

chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com

lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum

ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me


depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar

e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro

escuro desse sonho. Não sabem


que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu

nome - porque a memória é uma fogueira dentro

das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois



sexta-feira, 13 de março de 2026

Outra Ferreira a crescer...


Betão tirado a ferros , manchinhas verdes  e árvores a resistir...
José Maria Laura






Fotos - José Maria Laura, março de 2026

A Construção do Poema

A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.

António Ramos Rosa



 

domingo, 8 de março de 2026

ONU - Igualdade de género





 

DOCE LEGUAS - No voy sola




«Esta lámina es un homenaje silencioso a las mujeres que nos habitan. A las que vinieron antes, a las que nos sostuvieron, a las que caminaron incluso cuando no había camino. Figuras que avanzan juntas, cargando flores, memoria y ternura, recordándonos que nunca estamos realmente solas.

Es una pieza que habla de sororidad, de herencia emocional y de la fuerza que se transmite de generación en generación. De avanzar con miedo, pero avanzar igual. De llevar dentro a quienes nos enseñaron a florecer.»

AQUI