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domingo, 11 de junho de 2023

JOSEPH-LÉON-ROLAND DE LESTANG-PARADE - Mort du Camoëns


« Joseph-Léon-Roland de Lestang-Parade (1801 ou 1810-1887). Mort du Camoëns, 1834, présenté au Salon de 1835, huile sur toile, 196 × 227 cm. Aix-en-Provence, musée Granet, 835.1.1 ; don de l’artiste au musée d’Aix en 1835. »

MERCI



Explication des ouvrages de peinture, sculpture, architecture, gravure, et lithographie des artistes vivants exposés au Palais des Champs-Elysées  

 MERCI





sexta-feira, 10 de junho de 2022

MANUEL ALEGRE - Luís de Camões





Tinha uma flauta.
Não tinha mais nada mas tinha uma flauta
Tinha um órgão no sangue uma fonte de música
Tinha uma flauta.

Os outros armavam-se mas ele não:
Tinha uma flauta.
Os outros jogavam perdiam ganhavam
Tinham Madrid e tinham Lisboa
Tinham escravos na índia mas ele não:
Tinha uma flauta.

Tinham navios tinham soldados
Tinham palácios e tinham forcas
Tinham igrejas e tribunais
Mas ele não:
Tinha uma flauta.

Só ele Príncipe.
Dormiam rainhas na cama do rei
Princesas esperavam no Belvedere
Ele tinha uma escrava que morreu no mar.

Morreram escravas as rainhas
Morreram escravas as princesas
Nenhuma teve o seu rei
Para nenhum chegou o Príncipe.
Por isso a única rainha
Foi aquela escrava que morreu no mar:
Só ela teve
O que tinha uma flauta.

Morreram os reis que tinham impérios
Morreram os príncipes que tinham castelos
Mas ele não:
Tinha uma flauta.

De fora vieram reis
Vieram armas de fora
Os príncipes entregaram armas
Ficou sem armas o povo.
As armas de fora venceram
Todas as armas de dentro.
Só não venceram o que não tinha armas:
Tinha uma flauta.

E as vozes de fora mandaram
Calar as vozes de dentro.
Só não puderam calar aquela flauta.
Vieram juízes e cadeias.
Mas a flauta cantava.

Passaram por todas as fronteiras.
Só não puderam passar
Pela fronteira
Daquela flauta.

E quando tudo se perdeu
Ficou a arma do que não tinha armas:
Tinha uma flauta.

Ficou uma flauta que cantava.
E era uma Pátria.

Manuel Alegre


JÚLIO POMAR e MIGUEL TORGA - Camões




Júlio Pomar - 1990



Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza. 

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.

Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e a louco a combater.

Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Miguel Torga
 Poemas ibéricos, 1965.



JOSÉ DE GUIMARÃES - Camões salva os "Lusíadas" do naufrágio



1983 - Papel - Serigrafia
Centro de arte Moderna Gulbenkian