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terça-feira, 12 de maio de 2026

A Ferreira, trémula e velhinha, espreita e acompanha o crescimento da jovem Ferreira!


A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen














Fotografias - Maria Laura Matos 
Maio de 2026







sexta-feira, 13 de março de 2026

Outra Ferreira a crescer...


Betão tirado a ferros , manchinhas verdes  e árvores a resistir...
José Maria Laura






Fotos - José Maria Laura, março de 2026

A Construção do Poema

A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.

António Ramos Rosa



 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Romagem de Saudade

 

Julho de 2025, em jeito de despedida...

As nossas últimas fotos de uma Ferreira entaipada, quase moribunda, mas decidida a renascer!

José Maria Laura


































Alvará de Demolição

O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.

Adélia Prado




Salpicos de tempos idos


Julho de 2025

Nessa altura, a parte exterior da Ferreira apenas suspirava, mas as suas entranhas já soluçavam há longos dias, por entre recantos esventrados, nas Oficinas e na Escola Velha.

José Maria Laura
































 Apesar das ruínas 

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen