sexta-feira, 20 de março de 2026

ANTÓNIO GEDEÃO - Não há, não, duas folhas iguais

 


Fotografia - José Maria Laura



Não há, não,

duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,

não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

baínha nem todas.

Umas são fendidas,

crenadas, lobadas,

inteiras, partidas,

singelas, dobradas.

Outras acerosas,

redondas, agudas,

macias, viscosas,

fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,

nos actos distantes,

mesmo semelhantes

são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,

e lançam apelos nas ondas que fazem;

outras vão e jazem

sem mais movimento.

Mas outras não jazem,

nem caem, nem gritam,

apenas volitam

nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


António Gedeão


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