domingo, 22 de março de 2026

Na Ferreira - « Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro»


Numa sala quentinha (apesar do frio de dezembro), entre muitas mesas silenciosas, uma conversa  ficou sustida no tempo para me oferecer estes sorrisos imutáveis...


15 de dezembro de 2016


Porque as nossas vidas se ergueram à volta de mesas como esta, amparadas pelo companheirismo...

Margarida, Manuel e Lourdes, abraços jubilados!
Alice e Ana, muita energia até jubilarem (em todos os sentidos)!

Maria Laura



Os trabalhos e os dias


Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro

e principio a escrever como se escrever fosse respirar

o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem

de um caminho sem nada para o regresso da vida.


À medida que escrevo, vou ficando espantado

com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.

Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.

Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,

quando fico triste por serem palavras já ditas

estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.


Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.

E os convivas que chegam intencionalmente sorriem

e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo

e desenhei uma rena para a caçar melhor

e falo da verdade, essa iguaria rara:

este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena

 

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