quinta-feira, 19 de março de 2026

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - Pai, dizem-me que ainda te chamo


Fotografia - José Maria Laura


Pai, dizem-me que ainda te chamo


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante

o sono - a ausência não te apaga como a bruma

sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos

meus sonhos um território suspenso de toda a dor,

um país de verão aonde não chegam as guinadas

da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí


nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo

que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te

chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com

lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum

ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me


depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar

e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro

escuro desse sonho. Não sabem


que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu

nome - porque a memória é uma fogueira dentro

das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois



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